O filósofo clínico é, como afirma Lúcio Packter, um amigo, aquele que usa
seus conhecimentos filosóficos para auxiliar o outro a lidar com suas
questões, emprestando, nesta partilha, teorias filosóficas às pessoas, de
acordo com suas especificidades. Ele é um eterno pesquisador do ser humano,
de suas condições e possibilidades, e faz uso dos métodos filosóficos para
abordar as questões da existência.
Quando estudamos filosofia, aprendemos a ler uma questão filosoficamente, e
isto significa contextualizá-la, compreender a estrutura lógica que a
constitui, abordá-la com rigor metodológico, buscando a gênese, a raiz da
questão. Um texto, lido filosoficamente, supõe não apenas a compreensão da
questão proposta, mas desta dentro de um contexto maior: a questão dentro do
pensamento do autor, este diante da sociedade em que vive, esta diante de um
processo histórico que a contém... "é difícil achar o começo".
O
filósofo clínico faz uso dos procedimentos filosóficos para tratar as
questões cotidianas da existência humana. Com isso, contextualiza o assunto
trazido pelo partilhante (pessoa que procura a clínica), e este contexto
dentro da historicidade dele, e sua historicidade em seus Exames Categoriais
(Assunto, Circunstância, Tempo, Lugar, Relação). Com isso, surge a
possibilidade de um distanciamento, de um ver numa perspectiva mais ampla,
situando o problema e seu entorno, visando formas de abordagem às questões.
Além
deste processo, ao abordar uma questão, o filósofo possui, desde o início da
filosofia, o papel de provocador, de questionador, de investigador. É aquele
que instiga, que suscita o pensar, que provoca a reflexão, o olhar para o
próprio pensamento, visando a avaliação do processo de construção de nossas
crenças, de nosso conhecimento.
O
filósofo clínico provoca o partilhante a pensar sobre os processos de
construção de suas crenças, de seus conhecimentos, de suas verdades, de si
mesmo. Neste pensar, por vezes, descobrimos elementos para fortificar nossos
caminhos; outras vezes, descobrimos tratar-se de um caminho equivocado e,
portanto, buscamos formas de abandoná-lo, reconstruí-lo, modificá-lo,
ressignificá-lo e tantas outras possibilidades existentes e condizentes com
nossas necessidades singulares.
O
filósofo clínico trabalha com as diferentes possibilidades de modos de vida,
muitas e diferentes formas de vida. Não há, para ele, formas melhores ou
piores, certas ou erradas, a priori. Há, simplesmente, modos de ser,
que se situam num mundo, num tempo, num espaço e que se relacionam com
outros modos de ser. Em casos de choque, o que fazer? Em casos de
incompatibilidade, como resolver o problema? Em casos de relações de
parasitagem ou de simbiose, em casos de relações que eclipsam umas às
outras... o que fazer? O filósofo clínico suspende seus juízos e permanece
no não saber, provocando a pessoa a trilhar seu próprio caminho, a pensar
sobre suas questões e encontrar as melhores formas, segundo suas próprias
necessidades, para lidar com o que lhe afeta.
Onde
ele atende? No consultório, no hospital, na escola, na empresa, onde se
fizer necessário. Os consultórios de filosofia clínica recebem pessoas de
todas as idades, classes sociais, com os mais variados tipos de questões e
modos de vida.
Está
o filósofo preparado para lidar com as questões existenciais, sendo a sua
formação tão teórica? Apesar de uma imagem de alguém tão teórico que é
incapaz de lidar com os problemas práticos, o filósofo não é,
necessariamente, alguém que esteja desconectado das questões da vida. Suas
reflexões surgem do mundo, da vida, e a eles retornam. Filosofamos sobre os
problemas da realidade, sobre o que nos toca, nos afeta.
Além
disso, a formação do filósofo clínico exige uma abordagem muito específica
das questões filosóficas, visando não especular sobre o sofrimento alheio,
mas pesquisar formas para auxiliar o outro a lidar com suas dificuldades,
com seus problemas. Para isso, a Especialização em Filosofia Clínica, em
suas modalidades com Habilitação à Pesquisa e Habilitação à Clínica,
consistem no estudo de um instrumental que faz um recorte epistemológico da
História da Filosofia, permitindo ao filósofo clínico fazer uso dos métodos
filosóficos para abordar as questões da vida cotidiana.
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